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Parte B:
MANUEL
(com veemência e medo)
Então desenganas-me... desenganas-me já?... é isso que queres dizer? Fala, homem: não há que
esperar?... não há que esperar dali, não é assim? dize: morre, morre?... (desanimado) Também fico sem
filha!
JORGE
Não disse tal. Por caridade contigo, meu irmão, não imagines tal. Eu disse-te a verdade: Maria
pareceu-me menos oprimida; dormia...
MANUEL
(variando¹)
Se Deus quisera que não acordasse!
JORGE
Valha-me Deus!
MANUEL
Para mim aqui está esta mortalha²: (tocando no hábito³) morri hoje... vou amortalhar-me logo; e
adeus tudo o que era mundo para mim! Mas minha filha não era do mundo... não era, Jorge; tu bem
sabes que não era: foi um anjo que veio do Céu para me acompanhar na peregrinação da Terra, e que
me apontava sempre, a cada passo da vida, para a eterna pousada donde viera e onde me conduzia...
Separou-nos o arcanjo das desgraças, o ministro das iras do Senhor, que derramou sobre mim o vaso
cheio das lágrimas, e a taça rasa das amarguras ardentes de sua cólera... (caindo de tom) Vou com
esta mortalha para a sepultura... e, viva ou morta, cá deixo a minha filha no meio dos homens que a
não conheceram, que a não hão de conhecer nunca, porque ela não era deste mundo nem para ele...
(pausa) — Torna lá, Jorge, vai vê-la outra vez, vai e vem-me dizer; que eu ainda não posso... mas hei
de ir, oh! hei de ir vê-la e beijá-la antes de descer à cova... Tu não queres, não podes querer...
JORGE
Havemos de ir... quando estiveres mais sossegado... havemos de ir ambos: descansa, hás de
vê-la.— Mas isto inda é cedo.
MANUEL
Que horas serão?
JORGE
Quatro, quatro e meia. (Vai à porta da esquerda e volta.) São cinco horas, pelo alvor da manhã que
já dá nos vidros da igreja. Daqui a pouco iremos; mas sossega.
MANUEL
E a outra... a outra desgraçada, meu irmão?
JORGE
Está — imagina por ti —, está como não podia deixar de estar; mas a confiança em Deus pode
muito: vai-se conformando. O Senhor fará o resto. Eu tenho fé neste escapulário⁴ (tocando no hábito
em cima da mesa) para ti e para ela. Foi uma resolução digna de vós, foi uma inspiração divina que os
alumiou a ambos. Deixa estar; ainda pode haver dias felizes para quem souber consagrar⁵ a Deus as
suas desgraças.
Fonte:

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, edição de Maria João Brilhante, Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 193-196.

Notas:
  1. variando – alucinando; perdendo o juízo.2. mortalha – lençol ou túnica que envolve um cadáver.3. hábito – vestimenta usada por um(a) religioso(a).4. escapulário – parte do vestuário monástico que cai sobre os ombros e o peito.5. consagrar – oferecer; dedicar.
Questão:
As afirmações seguintes referem-se à obra *Frei Luís de Sousa*.
A. Jorge desempenha o papel de confidente de Manuel, tentando apaziguar o seu ânimo exaltado.
B. O destino implacável abate-se sobre as personagens, conduzindo, inevitavelmente, à destruição da
família.
C. O patriotismo de Manuel de Sousa Coutinho evidencia-se nas suas atitudes.
D. As emoções de Manuel revelam-se na sua linguagem, através do recurso a repetições vocabulares, a
interjeições e a frases exclamativas e interrogativas.
E. As didascálias fornecem informações sobre o tom de voz, os adereços, a entrada de novas personagens
e o tempo da ação dramática.
Identifique as três afirmações que podem ser comprovadas através da leitura do excerto apresentado.
Escreva, na folha de respostas, o número do item e as três letras que correspondem às afirmações
selecionadas.
Fonte: Exame Português - 2025, Época Especial
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