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Dificuldade: fácil
Parte B:
Depus a máscara e vi-me ao espelho...
Era a criança de há quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor.
Assim sou a máscara.
E volto à normalidade como a um términus de linha.
Fonte:

Álvaro de Campos, Poesia, edição de Teresa Rita Lopes, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 514.

Parte A:

Contexto:

Tal como em outras obras do século XIX, também na novela Coração, Cabeça e Estômago se caricatura a
sensibilidade e o modo de vida românticos. No excerto que vai ler, são visíveis as transformações operadas
pelo protagonista com o intuito de se aproximar da imagem de um herói romântico.


Na minha qualidade de cético, entendi que a desordem dos cabelos devia ser a imagem
da minha alma. Comecei, pois, por dar à cabeça um ar fatal, que chamasse a atenção, e
aguçasse a curiosidade dum mundo já gasto em admirar cabeças não vulgares. A anarquia
dos meus cabelos custava-me dinheiro e muito trabalho. Ia, todos os dias, ao cabeleireiro
calamistrar¹ os longos anéis, que me ondeavam nas espáduas²; depois desfazia as espirais,
riçava-as em caprichosas ondulações, dava à fronte o máximo espaço, e sacudia a cabeça
para desmanchar as torcidas deletreadas³ da madeixa. Como quer, porém, que a testa fosse
menos escampada⁴ que o preciso para significar «desordem e génio», comecei a barbear
a testa, fazendo recuar o domínio do cabelo, a pouco e pouco, até que me criei uma fronte
dilatada, e umas bossas frontais, como a natureza as não dera a Shakespeare nem a Goethe.
A minha cara ajeitava-se pouco à expressão dum vivo tormento de alma, em virtude de
ser uma cara sadia, avermelhada, e bem fornida de fibra musculosa. Era-me necessário
remediar o infortúnio de ter saúde, sem atacar os órgãos essenciais da vida, mediante o uso
de beberagens. Aconselharam-me os charutos do contrato⁵; fumei alguns dias, sem mais
resultado que uma ameaça de tubérculos⁶, uma formal estupidez de espírito, e não sei que
profundo dissabor até da farsa em que eu a mim próprio me estava dando em espetáculo.
A cara mantinha-se na prosa ignóbil do escarlate, mais incendiada ainda pelos acessos
de tosse, provocados pelo fumo. Um médico da minha íntima amizade receitou-me uma
essência roixa⁷ com a qual eu devia pintar o que vulgarmente se diz «olheiras». Ao deitar-me,
corria levemente algumas pinceladas sobre a cútis⁸, que desce da pálpebra inferior até às
prominências malares; ao erguer-me, tinha todo o cuidado em não lavar a porção arroixada
pela tinta, e com uma maçaneta de algodão em rama desbastava a pintura nos pontos em
que ela estivesse demasiadamente carregada. O artístico amor com que eu fazia isto deu em
resultado uma tal perfeição no colorido, que até o próprio médico chegou a persuadir-se, de
longe, que o pisado dos meus olhos era natural, e eu mesmo também me parece que cheguei
à persuasão do médico.
Fiz, pois, de mim uma cara entre o sentimental de Antony⁹ e o trágico de Fausto¹⁰. Seria, no
entanto, mais completa a minha satisfação se à raiz do cabelo, no ponto em que eu barbeava
a cabeça para aumentar a testa, me não aparecesse um diadema¹¹. Era a natureza
a vingar-se.
Fonte:

Camilo Castelo Branco, Coração, Cabeça e Estômago, edição de Cristina Sobral e Ariadne Nunes, Lisboa, IN-CM, 2019, pp. 39-40.

Notas:

1 calamistrar - tornar crespo ou frisado.2 espáduas – ombros.3 deletreadas – repartidas.4 escampada – ampla; larga.5 charutos do contrato – referência ao facto de o tabaco ser vendido por particulares através de um contrato estabelecido com a Coroa, que detinha o monopólio deste produto.6 tubérculos - nódulos arredondados, nos pulmões, característicos da tuberculose.7 roixa o mesmo que «roxa».8 cútis - pele da face.9 Antony - personagem de um drama romântico da autoria do romancista francês Alexandre Dumas (1802-1870).10 Fausto - protagonista de uma obra de Goethe, escritor romântico alemão (1749-1832).11 diadema - faixa semicircular no alto da testa.

Nos textos apresentados na Parte A e na Parte B desta prova, o protagonista, no primeiro caso, e o sujeito poético, no segundo caso, apresentam uma determinada imagem de si próprios.
Escreva uma breve exposição na qual compare esses textos quanto às ideias expressas.
A sua exposição deve incluir:
• uma introdução ao tema;
• um desenvolvimento no qual explicite um aspeto em que os textos se aproximam e um aspeto em que se distinguem quanto à imagem que cada sujeito de enunciação apresenta de si próprio;
• uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema.
Fonte: Exame Português - 2024, 1ª Fase
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