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Dificuldade: por definir
Parte A:
Casa de MANUEL, deserta. Entram a MÃE e ANA.
MÃE (Muito preocupada) – Pede-lhe que não vá, Ana, pede-lhe que não vá!
ANA – Ele não me dará ouvidos, minha mãe. Está muito decidido.
MÃE (Chorosa) – Foi o vosso pai que o convenceu... Falou-lhe tanto do mar e das coisas
que por lá viu que ele quis ir também. Hei de perder marido e filho no mar! Que será de nós
as duas, sozinhas e sem homem em casa?
ANA
Não fale assim, minha mãe... Hão de voltar os dois, com a graça de Deus!
Requereram-no para ir, que podia ele fazer? Querei-lo açoitado ou degredado¹ com baraço²?
A MÃE deixa-se cair sobre um banco, metendo a cabeça entre as mãos, desesperada.
MÃE (Inconformada) – Tantos andam fugidos às galés³, porque há de ele ir? [...]
Entra MANUEL.
A MÃE ergue-se e agarra-se a ele.
MÃE – Não vás, Manuel, não vás, que nunca mais voltas!
MANUEL (Afastando-a docemente) – Tenho que ir, minha mãe, não tema. Mete mais medo
a pobreza que metem o mar e as tormentas. Dê-me a sua bênção, que já me esperam.
ANA traz alguma comida e uma vasilha.
ANA (Para o irmão) – Come alguma coisa antes de ires...
MANUEL senta-se e come.
A MÃE senta-se ao seu lado, pegando-lhe na mão.
ANA fica de pé, ao lado do irmão.
MANUEL (Para a mãe) – Não teremos mais fome, minha mãe, hei de trazer ouro e prata
que bastem para não termos mais fome em casa!
MÃE (Chorosa) – Com a fome que temos nos bastamos nós, filho... Contigo e teu pai em
casa, passamos bem sem ouro e sem prata. Vê teu pai: que ouro e prata tem trazido ele do
mar senão doenças e inquietações?
ANA (Confortando-a) – Não se ponha assim, minha mãe, não chore, que não faltará outra
hora que choremos ainda que não queiramos. O Manuel há de voltar, e havemos de mandar
fazer uma casa e comprar uma horta.
MÃE
Não me fales de casas e hortas, filha. De que nos servirão casas e hortas com
eles mortos no fundo do mar ou tragados por algum leviata⁴? Bem a galinha vive com a sua
pevide. Não me fales em casas nem em hortas, filha!
MANUEL levanta-se.
MANUEL – É tempo de me ir. A sua bênção, minha mãe.
A MÃE estreita MANUEL, chorando.
MÃE – Adeus, meu filho. Deus te abençoe, meu filho...
ANA abraça também o irmão.
ANA - Adeus, Manuel.
MANUEL dirige-se à porta.
MANUEL (Voltando-se) – Recomendai-me a meu pai, quando ele regressar. Quem sabe
se não me irei encontrar com ele no mar?
MANUEL sai.
A MÃE e ANA ficam sós.
A MÃE deixa-se de novo cair sobre o banco, soluçando. ANA ampara-a.
ANA – Trás⁵ a névoa vem o Sol, minha mãe, e trás um tempo vem outro, não chore. Para
tudo há remédio, menos para a morte. Vai ver que, um dia, o Manuel volta e que o nosso pai
volta também.
MÃE – Nosso Senhor te ouça, filha, que eu, Deus me guarde, pouca esperança tenho...
ANA - Nestes tempos, os homens todos do reino vão para o mar, minha mãe. Não vedes
como anda tudo despovoado? (Acarinhando a mãe) E nem todos se perdem... Com a graça
de Deus, os hão de voltar! Vamos as duas rezar.
As luzes, lentamente, extinguem-se.
Fonte:

Manuel António Pina, Aquilo que os olhos veem ou O Adamastor, Coimbra, Angelus Novus, 2012 (adaptado)

Notas:

1 degredado – condenado a pena de desterro. 2 baraço – corda. 3 galés – embarcações de guerra, movidas a vela e a remos. 4 leviatã – monstro marinho mencionado na Bíblia. 5 Trás – após.

Questão:
Com base no excerto transcrito, justifica as duas últimas falas de Ana, tendo em conta o papel que a personagem desempenha na ação.
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2015, 2ª Fase

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