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Dificuldade: fácil
Parte A:
A rapariga¹ fica de perfil, o homem está de costas, conversam em voz baixa, mas o tom dela
subiu quando disse, Não, meu pai, sinto-me bem, são portanto pai e filha, conjunção pouco
costumada em hotéis, nestas idades. O criado veio servi-los, sóbrio mas familiar de modos,
depois afastou-se, agora a sala está silenciosa, nem as crianças levantam as vozes, estranho
caso, Ricardo Reis não se lembra de as ter ouvido falar, ou são mudas, ou têm os beiços
colados, presos por agrafes invisíveis, absurda lembrança, se estão comendo. A rapariga
magra acabou a sopa, pousa a colher, a sua mão direita vai afagar, como um animalzinho
doméstico, a mão esquerda que descansa no colo. Então Ricardo Reis, surpreendido
pela sua própria descoberta, repara que desde o princípio aquela mão estivera imóvel,
recorda-se de que só a mão direita desdobrara o guardanapo, e agora agarra a esquerda e vai
pousá-la sobre a mesa, com muito cuidado, cristal fragilíssimo, e ali a deixa ficar, ao lado
do prato, assistindo à refeição, os longos dedos estendidos, pálidos, ausentes. Ricardo Reis
sente um arrepio, é ele quem o sente, ninguém por si o está sentindo, por fora e por dentro da
pele se arrepia, e olha fascinado a mão paralisada e cega que não sabe aonde há de ir se a
não levarem, aqui a apanhar sol, aqui a ouvir a conversa, aqui para que te veja aquele senhor
doutor que veio do Brasil, mãozinha duas vezes esquerda, por estar desse lado e ser canhota,
inábil, inerte, mão morta mão morta que não irás bater àquela porta. Ricardo Reis observa que
os pratos da rapariga vêm já arranjados da copa, limpo de espinhas o peixe, cortada a carne,
descascada e aberta a fruta, é patente que filha e pai são hóspedes conhecidos, costumados
na casa, talvez vivam mesmo no hotel.
Nem sempre o trabalho corre bem. Não é verdade que a mão esquerda não faça falta².
Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma
mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de limpar o sujo
que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da guerra,
mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois braços, ou as
duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los ou por isso
mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou torcer
um vime, é infalível o espigão para abrir olhais³ no pano de vela, mas as coisas obedecem
mal quando lhes falta a carícia da pele humana, cuidam que se sumiram os homens a quem
se habituaram, é o desconcerto do mundo. Por isso, Blimunda vem ajudar, e, chegando ela,
acaba-se a rebelião, Ainda bem que vieste, diz Baltasar, ou sentem-no as coisas, não se sabe
ao certo.
Uma vez por outra, Blimunda levanta-se mais cedo, antes de comer o pão de todas as
manhãs⁴, e, deslizando ao longo da parede para evitar pôr os olhos em Baltasar, afasta o pano
e vai inspecionar a obra feita⁵, descobrir a fraqueza escondida do entrançado, a bolha de ar
no interior do ferro, e, acabada a vistoria, fica enfim a mastigar o alimento, pouco a pouco se
tornando tão cega como a outra gente que só pode ver o que à vista está. Quando isto fez
pela primeira vez e Baltasar depois disse ao padre Bartolomeu Lourenço, Este ferro não serve,
tem uma racha por dentro, Como é que sabes, Foi Blimunda que viu, o padre virou-se para
ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou, Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás
Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua
mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre,
não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as
estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.
Fonte:

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis, 10.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1993, pp. 26-27; José Saramago, Memorial do Convento, 27.ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1998, pp. 91-92.

Notas:

1 a rapariga – referência a Marcenda Sampaio.2 que a mão esquerda não faça falta – referência ao facto de Baltasar ter regressado da Guerra da Sucessão Espanhola sem a mão esquerda, que foi substituída por um gancho e por um espigão.3 olhais – aberturas ou aros em que entra um espigão.4 antes de comer o pão de todas as manhãs – referência ao facto de Blimunda possuir poderes extraordinários que lhe permitem, quando se encontra em jejum, ver «o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra».5 obra feita – referência à construção da passarola, uma máquina voadora idealizada pelo padre Bartolomeu Lourenço.

Questão:
A forma como pai e filha são tratados no hotel permite concluir que são clientes habituais. Apresente duas evidências que comprovem esta afirmação.
Fonte: Exame Português - 2023, 1ª Fase
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