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Parte B:
Lisboa, Mouraria, casa de Luís de Camões, princípio de maio de 1570.
DIOGO DO COUTO (Falando de fora) – Luís Vaz mora nesta casa?
ANA DE SÁ (Abrindo a porta) – Nesta mesma. Vós, quem sois?
DIOGO DO COUTO – Diogo do Couto, amigo e companheiro de vosso filho, para vos servir.
ANA DE SÁ – Vós sois Diogo do Couto? Entrai. E não repareis na pobreza da casa,
que é de mulher velha e viúva. E, se não fica mal dizer, só desde há duas semanas mãe
outra vez.
DIOGO DO COUTO – Senhora, de casas pobres falais com homem de muita experiência
que não viveu em palácios, ou quando neles habitou não foi em salas e aposentos
principais. Tal como vosso filho.
ANA DE SÁ - Sentai-vos, sentai-vos. Deixai que olhe bem o rosto do amigo do meu Luís.
DIOGO DO COUTO – Outros tem.
ANA DE SÁ – Mas nenhum melhor do que vós. (Outro tom) Porém não devo ser injusta
para quantos, com tão grande generosidade, restituíram o filho aos braços de sua mãe
ao cabo de dezassete anos. Dezassete anos que esperei aqui por ele, sem notícias, ou
tão poucas, pensando se estaria morto, se por lá me teria ficado, nessas terras estranhas
donde nenhum bem nos veio nunca, e já não virá.
DIOGO DO COUTO – Não gostais da Índia?
ANA DE SÁ – Que é a Índia?
DIOGO DO COUTO – Senhora, que pergunta a vossa. Não cuidava eu, quando
desembarquei, que alguém me pusesse em Lisboa questão de tanta dificuldade. Que
resposta vos hei de dar?
ANA DE SÁ – Vós o sabereis.
DIOGO DO COUTO – Sei o que é a Índia agora. Vem de lá a especiaria, a seda, todas
essas riquezas que chegam ao reino.
ANA DE SÁ – Da Índia sabeis certamente muito mais do que isso.
DIOGO DO COUTO – Tendes razão. A Índia será, ou cuido que já o é, uma doença de
Portugal. Queira Deus que não mortal doença.
ANA DE SÁ - Senhor Diogo do Couto, eu não sei ler. Luís Vaz trouxe aí muitos papéis...
DIOGO DO COUTO – Papéis ilustres, que os conheço.
ANA DE SÁ – Aí se senta os dias a corrigir, a ler em voz alta. Muito do que diz não sei
entender, é tudo um falar de deuses e deusas, nomes de terras e mares desconhecidos,
prodígios, coisas nunca vistas, quem, neste bairro da Mouraria, seria capaz de imaginar
o mundo assim?
DIOGO DO COUTO – O mundo tem ainda muito mais que ver e admirar.
ANA DE SÁ – Há dias pedi-lhe que me lesse uma passagem mais clara, que pudesse
chegar melhor ao meu entendimento, e ele pôs-se a olhar para mim com um ar muito
grave¹, e depois de procurar leu-me a fala do velho² que esteve na partida das naus para
a Índia. Estais lembrado?
DIOGO DO COUTO – Como do meu próprio nome. Ó glória de mandar, ó vã cobiça
dessa vaidade a que chamamos fama...³
Ana de Sá – Esses versos escreveu-os Luís Vaz na Índia, não foi?
DIOGO DO COUTO - Decerto.
Ana de Sá – Então, quando vós dizeis que a Índia será uma doença de Portugal,
estais declarando doutro modo aquilo que meu filho disse nas oitavas que me leu.
É assim que eu entendo.
DIOGO DO COUTO – Discreta sois.
ANA DE SÁ – Zombais de uma pobre velha ignorante. Tive tempo para pensar no meu
filho, nessas terras e nessas viagens. Dezassete anos a pensar são muitos pensamentos.
Outra vez vos digo obrigada, senhor Diogo do Couto, por mo terdes trazido.
Fonte:

José Saramago, Que Farei com Este Livro?, Lisboa, Caminho, 1999, pp. 47-51. (Texto com supressões)

Notas:
  1. grave - sério. 2. velho - referência ao Velho do Restelo, figura que, em Os Lusíadas, se dirige aos navegadores no momento da partida da armada de Vasco da Gama para a Índia. 3. Ó glória de mandar, ó vã cobiça dessa vaidade a que chamamos fama... – referência ao início da fala do Velho do Restelo em Os Lusíadas.
Questão:
Imagina que eras o encenador desta peça e que estavas com os atores a ensaiar esta cena.
Que conselho darias à atriz que iria desempenhar o papel de Ana de Sá para a auxiliar a representar a mudança de tom prevista na indicação cénica «Outro tom» (linha 13)?
Justifica a tua opção, tendo em conta o contexto em que surge a indicação cénica.
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2019, 1ª Fase

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