O oficial era moço, talvez não tinha trinta anos; posto que o trato das armas, o rigor das
estações, e o selo visível dos cuidados que trazia estampado no rosto, acentuassem já mais
fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.
A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa
um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra
desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar – espécie de great-coat¹
inglês que a imitação das modas britânicas tinha tornado familiar nos nossos bivaques². Trazia-o
desabotoado e descaído para trás, porque a noite não era fria; e via-se por baixo elegantemente
cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus característicos alamares³
pretos e avivada de encarnado...
Uniforme tão militar, tão nacional, tão caro a nossas recordações – que essas gentes,
prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado nesta terra, proscreveram⁴ do
exército... por muito português de mais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins⁵ da alfândega,
reformaram-no em uniforme da bicha⁶!
Não pude resistir a esta reflexão: as amáveis leitoras me perdoem por interromper com ela
o meu retrato.
Mas quando pinto, quando vou riscando e colorindo as minhas figuras, sou como aqueles
pintores da Idade Média que entrelaçavam nos seus painéis dísticos de sentenças, fitas
lavradas de moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e atitudes
expressão bastante para dizer por eles o que assim escreviam, e servia a pena de suplemento
e ilustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...
Será; mas em mim é irremediável, não sei pintar de outro modo.
Voltemos ao nosso retrato.
Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza imensa, denunciavam o
talento, a mobilidade do espírito – talvez a irreflexão... mas também a nobre singeleza de um
carácter franco, leal e generoso, fácil na ira, fácil no perdão, incapaz de se ofender de leve,
mas impossível de esquecer uma injúria verdadeira.
– Meu pai! Não meta este senhor em maiores trabalhos! – disse Mariana.
– Não tem dúvida, menina – atalhou Simão; – eu é que não quero meter ninguém em
trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei de eu lutar sozinho.
João da Cruz, assumindo uma gravidade de que a sua figura raras vezes se enobrecia,
disse:
– Senhor Simão, Vossa Senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça
aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não
lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia
que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar⁷. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem
com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de
um homem botar a perder⁸. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco,
que mergulha uma, e aparecem quatro à tona d’água. Um homem rico e fidalgo como Vossa
Senhoria, onde quer, topa uma com um palmo de cara como se quer, e um dote de encher o
olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ela, se tiver de ser sua, à mão lhe há de vir dar, e
tanto faz andar pra trás como pra diante, é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo;
tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita a olhar o sete-estrelo⁹,
mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo,
e a um regimento, se for necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta
com quatro homens, que são quatro dragões.
Simão fitara os olhos chamejantes nos do ferrador, e Mariana exclamara, ajuntando as
mãos sobre o seio:
– Meu pai! não lhe dê esses conselhos!…
– Cala-te aí, rapariga! – disse mestre João. – Vai tirar o albardão¹⁰ à égua, amanta-a, e
bota-lhe seco. Não és aqui chamada.
– Não vá aflita, senhora Mariana – disse Simão à moça, que se retirava amargurada. – Eu
não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que quer
o meu bem; mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselhar.