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Dificuldade: fácil
Parte A:
Até noite alta Gonçalo, passeando pelo quarto, remoeu a amarga certeza de que sempre,
através de toda a sua vida (quase desde o colégio de S. Fiel!), não cessara de padecer
humilhações. E todas lhe resultavam de intentos muito simples, tão seguros para qualquer
homem como o voo para qualquer ave — só para ele constantemente rematados por dor,
vergonha ou perda! À entrada da vida escolhe com entusiasmo um confidente, um irmão,
que traz para a quieta intimidade da Torre — e logo esse homem se apodera ligeiramente do
coração de Gracinha e ultrajosamente a abandona! Depois concebe o desejo tão corrente
de penetrar na vida política — e logo o acaso o força a que se renda e se acolha à influência
desse mesmo homem, agora autoridade poderosa, por ele durante todos esses anos de
despeito tão detestada e chasqueada¹! Depois abre ao amigo, agora restabelecido na sua
convivência, a porta dos Cunhais, confiado na seriedade, no rígido orgulho da irmã — e logo a
irmã se abandona ao antigo enganador, sem luta, na primeira tarde em que se encontra com
ele na sombra favorável de um caramanchão²! Agora pensa em casar com uma mulher que
lhe oferecia com uma grande beleza uma grande fortuna — e imediatamente um companheiro
de Vila-Clara passa e segreda: «A mulher que escolheste, Gonçalinho, é uma marafona cheia
de amantes!» Decerto essa mulher não a amava com um amor nobre e forte! Mas decidira
acomodar nos formosos braços dela, muito confortavelmente, a sua sorte insegura — e eis que
logo desaba, com esmagadora pontualidade, a humilhação costumada. Realmente o destino
malhava sobre ele com rancor desmedido!
— E porquê? murmurava Gonçalo, despindo melancolicamente o casaco. — Em vida tão
curta, tanta deceção... Porquê? Pobre de mim!
Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Afonso da Maia estava no seu escritório
lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, alçando os olhos do livro, viu Pedro diante de
si. Vinha todo enlameado, desalinhado, e na sua face lívida, sob os cabelos revoltos, luzia um
olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra atirou-se aos braços
do pai, rompeu a chorar perdidamente.
— Pedro! Que sucedeu, filho?
Maria³ morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, à ideia do filho livre para sempre dos
Monfortes, voltando-lhe, trazendo à sua solidão os dois netos, toda uma descendência para
amar! E repetia, trémulo também, desprendendo-o de si com grande amor:
— Sossega, filho, que foi?
Pedro então caiu para o canapé, como cai um corpo morto; e levantando para o pai um
rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, numa voz surda:
— Estive fora de Lisboa dois dias... Voltei esta manhã... A Maria tinha fugido de casa com
a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E aqui estou!
Afonso da Maia ficou diante do filho, quedo, mudo, como uma figura de pedra; e a sua
bela face, onde todo o sangue subira, enchia-se, pouco a pouco, de uma grande cólera. Viu,
num relance, o escândalo, a cidade galhofando, as compaixões, o seu nome pela lama. E
era aquele filho que, desprezando a sua autoridade, ligando-se a essa criatura, estragara
o sangue da raça, cobria agora a sua casa de vexame. E ali estava, ali jazia sem um grito,
sem um furor, um arranque brutal de homem traído! Vinha atirar-se para um sofá, chorando
miseravelmente! Isto indignou-o, e rompeu a passear pela sala, rígido e áspero, cerrando os
lábios para que não lhe escapassem as palavras de ira e de injúria que lhe enchiam o peito
em tumulto... — Mas era pai: ouvia, ali ao seu lado, aquele soluçar de funda dor; via tremer
aquele pobre corpo desgraçado que ele outrora embalara nos braços… Parou junto de Pedro,
tomou-lhe gravemente a cabeça entre as mãos, e beijou-o na testa, uma vez, outra vez, como
se ele fosse ainda criança, restituindo-lhe ali e para sempre a sua ternura inteira.
Fonte:

Eça de Queiroz, A Ilustre Casa de Ramires, edição de Helena Cidade Moura, 18.ª ed., Lisboa, Livros do Brasil, 2015, pp. 294-295; Eça de Queiroz, Os Maias, edição de Helena Cidade Moura, Lisboa, Livros do Brasil, 1998, pp. 44-45.

Notas:

1 chasqueada - ridicularizada.2 caramanchão – construção de canas, ripas, estacas ou outros materiais, onde se entrelaçam trepadeiras, formando um espaço de sombra e de frescura.3 Maria – Maria Monforte, esposa de Pedro da Maia.

Questão:
Explicite a evolução dos sentimentos de Afonso da Maia no excerto de Os Maias.
Fonte: Exame Português - 2020, Época Especial
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