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Dificuldade: fácil
Parte B:
ROMEIRO:
Tu, bem sei que duvidaste sempre da minha morte, que não quiseste ceder a nenhuma
evidência: não me admirou de ti, meu Telmo. Mas também não posso — Deus me ouve —, não
posso criminar ninguém porque o acreditasse: as provas eram de convencer todo o ânimo; só
lhe podia resistir o coração. E aqui... coração que fosse meu... não havia outro.
TELMO:
Sois injusto.
ROMEIRO:
Bem sei o que queres dizer. — E é verdade isso? é verdade que por toda a parte me
procuraram, que por toda a parte... ela mandou mensageiros, dinheiro?
TELMO:
Como é certo estar Deus no Céu, como é verdade ser aquela a mais honrada e virtuosa
dama que tem Portugal.
ROMEIRO:
Basta: vai dizer-lhe que o peregrino era um impostor, que desapareceu, que ninguém mais
houve novas dele; que tudo isto foi vil e grosseiro embuste dos inimigos de... dos inimigos
desse homem que ela ama... E que sossegue, que seja feliz. — Telmo, adeus!
TELMO:
E eu hei de mentir, senhor, eu hei de renegar de vós, como ruim vilão que não sou?
ROMEIRO:
Hás de, porque eu te mando.
TELMO:
(em grande ansiedade)
Senhor, senhor, não tenteis a fidelidade do vosso servo. É que vós não sabeis... D. João,
meu senhor, meu amo, meu filho, vós não sabeis...
ROMEIRO:
O quê?
TELMO:
Que há aqui um anjo... uma outra filha minha, senhor, que eu também criei...
ROMEIRO:
E a quem já queres mais que a mim: dize a verdade.
TELMO:
Não mo pergunteis.
ROMEIRO:
Nem é preciso. Assim devia de ser. Também tu! — Tiraram-me tudo. (pausa) — E têm um
filho, eles?... — Eu não... — E mais, imagino... Oh, passaram hoje pior noite do que eu. Que
lho leve Deus em conta e lhes perdoe como eu perdoei já. — Telmo, vai fazer o que te mandei.
TELMO:
Meu Deus, meu Deus! que hei de eu fazer?
ROMEIRO:
O que te ordena teu amo. — Telmo, dá-me um abraço. (Abraçam-se.) Adeus, adeus, até...
TELMO: (com ansiedade crescente)
Até quando, senhor?
ROMEIRO:
Até ao dia de juízo.
TELMO:
Pois vós?...
ROMEIRO:
Eu... — Vai, saberás de mim quando for tempo. Agora é preciso remediar o mal feito. Fui
imprudente, fui injusto, fui duro e cruel. E para quê? — D. João de Portugal morreu no dia em
que sua mulher disse que ele morrera. Sua mulher honrada e virtuosa, sua mulher que ele
amava... oh Telmo, Telmo, com que amor a amava eu! — Sua mulher que ele já não pode
amar sem desonra e vergonha!... Na hora em que ela acreditou na minha morte, nessa hora
morri. Com a mão que deu a outro riscou-me do número dos vivos. D. João de Portugal não
há de desonrar a sua viúva. Não: vai; dito por ti terá dobrada força: dize-lhe que falaste com o
romeiro, que o examinaste, que o convenceste de falso e de impostor... dize o que quiseres,
mas salva-a a ela da vergonha, e ao meu nome da afronta. De mim já não há senão esse
nome, ainda honrado; a memória dele que fique sem mancha. — Está em tuas mãos, Telmo,
entrego-te mais que a minha vida. Queres faltar-me agora?
Fonte:

Almeida Garrett, Frei Luís de Sousa, edição de Maria João Brilhante, Lisboa, Comunicação, 1982, pp. 209-214.

Questão:
Ao longo da cena, assiste-se à humanização do Romeiro, o que está patente na grandeza moral e no altruísmo manifestados pela personagem.
Justifique esta afirmação com base em dois aspetos presentes no diálogo travado com Telmo a partir da linha 34.
Fonte: Exame Português - 2023, Época Especial
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