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Dificuldade: por definir
Parte A:
O assobio, umas vezes, era baixo, mal se ouvia, outras vezes, alto, muito alto, com trinados¹
ridículos e irritantes. Ninguém sabia o que ele assobiava. E o homem também não. Qualquer
coisa que lhe apetecia que fosse assim mesmo. Às vezes repetia os sons como um estribilho².
Outras vezes, porém, a maior parte das vezes, passava a novas combinações, ora brandas,
ora violentas, sem querer saber para nada das que ficavam para trás.
As pessoas começavam a olhar umas para as outras à socapa³. Já se tinha visto coisa
assim? Um ou outro cavalheiro levantava os olhos do jornal, franzia a testa, fitava com dureza
o homem do chapéu coçado e sobretudo castanho, na esperança de que ele, envergonhado,
parasse com aquilo. A senhora opulenta⁴, no auge do espanto, nem se atrevia a olhar para
lado nenhum, vexadíssima⁵ porque, sem ter culpa nenhuma, se encontrava em plena zona
do escândalo. A que uma pessoa está sujeita!
E, no silêncio do carro, o assobio aumentava de volume. Talvez, no fundo, aquele
gorjeio⁶ ridículo não fosse desagradável de todo. Simplesmente, um elétrico⁷ não é o local
mais próprio para exibições daquelas. Porque não interferiria o condutor? O condutor era
a autoridade do carro. Porque não interferiria? Estava-se a ver. Era tão bom como ele. A
verdade, porém, é que não se conhecia nenhum regulamento que impedisse os passageiros
de assobiar. Colados aos vidros do elétrico, havia papéis que proibiam fumar, cuspir no carro.
Era proibido abrir as janelas durante os meses de inverno. Mas nem uma palavra a respeito
de assobios.
De repente, uma criança que ia sentada junto duma janela e já se sentia enfastiada de
olhar para a rua interessou-se pelo homem. Achava-lhe tanta graça, com o seu chapéu
coçado, o seu sobretudo castanho, o seu assobio... Era uma criança muito pálida, de cabelos
louros e encaracolados, vestida de azul. Interessou-se tanto pelo homem que começou a
bater palmas. Mas uma senhora nova e bonita, que ia ao lado dela, segurou-lhe as mãos
com gentileza e afastou-lhas. Devia ir calada e quietinha. Era muito feio fazer barulho no
elétrico. Uma menina bonita não fazia barulho. «Que disse eu à minha filha?» No entanto, a
senhora nova e bonita não antipatizava com o homem. Olhava os embrulhos de papel vistoso
que trazia nos joelhos e pensava: se não pudesse mais e começasse também a assobiar?
No fundo, admirava a sem-cerimónia do homem do chapéu coçado. Não seria adorável ela
própria, uma senhora casada e mãe duma garota de cinco anos, começar a assobiar num
elétrico se lhe apetecesse? Quando era da idade da filha, a senhora bonita ia muitas vezes
ao campo vestida com coisas velhas para poder atirar-se para a relva à vontade. Tinha uma
voz muito suave e muito fresca, gostava de fazer precisamente aquilo que uma menina bonita
não deve fazer. Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo, atiravam-na ao ar. E ela ria, ria, ria
até ficar sufocada. A mãe dizia: «Pronto, pronto, vamos a ter juízo, não se ri assim dessa
maneira.» E, quanto mais lho diziam, mais lhe apetecia rir, rir, rir.
De vez em quando, um passageiro saía. A plataforma do carro ia-se esvaziando. E, pouco
a pouco, os que ficavam foram-se habituando àquele estúpido assobio. Os cavalheiros tinham
esquecido os jornais. Algumas senhoras sorriam. Já se vira um disparate assim?
Fonte:

Mário Dionísio, «Assobiando à vontade», in O Dia Cinzento e Outros Contos, 2.ª ed., Mem Martins, Publicações Europa-América, s.d.

Notas:

1 trinados – repetição rápida e alternada de duas notas musicais consecutivas. 2 estribilho – refrão. 3 à socapa – disfarçadamente. 4 opulenta – corpulenta; de grandes dimensões. 5 vexadíssima – envergonhadíssima. 6 gorjeio – produção de sons melodiosos, variando os tons. 7 elétrico – transporte público para passageiros movido a eletricidade.

Questão:
Apresenta três exemplos que ilustrem as reações dos passageiros ao assobio do «homem do chapéu
coçado».
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2016, 1ª Fase

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