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Dificuldade: fácil
Parte A:
A multidão não parava de passar. Era o centro do centro da cidade. O homem estava
sozinho, sozinho. Rios de gente passavam sem o ver.
Só eu tinha parado, mas inutilmente. O homem não me olhava. Quis fazer alguma coisa,
mas não sabia o quê. Era como se a sua solidão estivesse para além de todos os meus gestos,
como se ela o envolvesse e o separasse de mim e fosse tarde de mais para qualquer palavra
e já nada tivesse remédio. Era como se eu tivesse as mãos atadas. Assim, às vezes, nos
sonhos, queremos agir e não podemos.
O homem caminhava muito devagar. Eu estava parada no meio do passeio, contra o sentido
da multidão.
Sentia a cidade empurrar-me e separar-me do homem. Ninguém o via caminhando
lentamente, tão lentamente, com a cabeça erguida e com uma criança nos braços, rente ao
muro de pedra fria.
Agora eu penso no que podia ter feito. Era preciso ter decidido depressa. Mas eu tinha
a alma e as mãos pesadas de indecisão. Não via bem. Só sabia hesitar e duvidar. Por isso
estava ali parada, impotente, no meio do passeio. A cidade empurrava-me e um relógio bateu
horas.
Lembrei-me de que tinha alguém à minha espera e que estava atrasada. As pessoas que
não viam o homem começavam a ver-me a mim. Era impossível continuar parada.
Então, como o nadador que é apanhado numa corrente desiste de lutar e se deixa ir com
a água, assim eu deixei de me opor ao movimento da cidade e me deixei levar pela onda de
gente para longe do homem.
Mas enquanto seguia no passeio, rodeada de ombros e cabeças, a imagem do homem
continuava suspensa nos meus olhos. E nasceu em mim a sensação confusa de que nele
havia alguma coisa ou alguém que eu reconhecia.
Rapidamente evoquei todos os lugares onde eu tinha vivido. Desenrolei para trás o filme
do tempo. As imagens passaram oscilantes, um pouco trémulas e rápidas. Mas não encontrei
nada. E tentei reunir e rever todas as memórias de quadros, de livros, de fotografias. Mas
a imagem do homem continuava sozinha: a cabeça levantada, que olhava o céu com uma
expressão de infinita solidão, de abandono e de pergunta.
E do fundo da memória, trazidas pela imagem, muito devagar, uma por uma, inconfundíveis,
apareceram as palavras:
− Pai, Pai, por que me abandonaste?
Então compreendi por que é que o homem que eu deixara para trás não era um estranho.
A sua imagem era exatamente igual à outra imagem que se formara no meu espírito quando
eu li:
− Pai, Pai, por que me abandonaste?
Era aquela a posição da cabeça, era aquele o olhar, era aquele o sofrimento, era aquele o
abandono, aquela a solidão.
Para além da dureza e das traições dos homens, para além da agonia da carne, começa a
prova do último suplício: o silêncio de Deus.
E os céus parecem desertos e vazios sobre as cidades escuras.
Fonte:

Sophia de Mello Breyner Andresen, «O Homem», Contos Exemplares, Porto, Porto Editora, 2013, pp.132-134.

Notas:

1 Pai, Pai, por que me abandonaste? – referência às palavras proferidas por Jesus Cristo na cruz e citadas no Evangelho de S. Mateus.

Questão:
A narradora afirma: «o homem que eu deixara para trás não era um estranho.» (linha 33). Explique as razões que a levam a pensar que reconhece aquele homem.
Fonte: Exame Português - 2019, Época Especial
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