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Dificuldade: por definir
Parte A:
Minha mãe e minha tia foram à feira. Minha mãe com o meu pai e minha tia com o meu tio.
Mas todos juntos. Na camioneta da carreira. Na feira compraram muitas coisas e a certa altura
minha mãe viu uma galinha e disse:
– Olha que galinha engraçada.
E comprou-a também. Estava agachada como se a pôr ovos ou a chocá-los. Era castanha
nas asas, menos castanha para o pescoço, e a crista e o bico tinham a cor de um bico e de
uma crista. Nas costas levara um corte a toda a volta para se formar uma tampa e meterem
coisas dentro, porque era uma galinha de barro. Minha tia, que se tinha afastado, veio ver,
estava a minha mãe a pagar depois de discutir. E perguntou quanto custava. A mulher disse
que vinte mil-réis¹, minha tia começou aos berros, que aquilo só se o fosse roubar, e a mulher
vendeu-lhe uma outra igual por sete mil e quinhentos. Minha mãe aí não se conformou, porque
tinha regateado mas só conseguira baixar para doze e duzentos. A mulher disse:
– Foi por ser a última, minha senhora.
Minha tia confrontou as duas galinhas, que eram iguais, achando que a de minha mãe era
diferente.
– Só se foi por ser mais cara – disse minha mãe com a ironia que pôde.
Minha tia aqui voltou a erguer a voz. Não se via que era diferente? Não se via que tinha o
bico mais perfeito? E o rabo?
– Isto é lá rabo que se compare?
E tais coisas disse e tantas, com gente já a chegar-se, que minha mãe pôs fim ao sermão,
por não gostar de trovoadas:
– Mas se gostas mais desta, leva-a, mulher.
Foi o que ela quis ouvir. Trocou logo as galinhas, mas ainda disse:
– Mas sempre te digo que a minha é de mais dura, basta bater-lhe assim (bateu) para se
ver que é mais forte.
– Então fica com ela outra vez – disse minha mãe.
– Não, não. Trafulhices, não. Está trocada, está trocada.
Meu tio estava a assistir mas não dizia nada, porque minha tia dizia tudo por ele e, se
dissesse alguma coisa de sua invenção, minha tia engolia-o. Meu pai também estava a assistir,
mas também não dizia nada, por entender que aquilo era assunto de mulheres.
Fonte:

Vergílio Ferreira, «A galinha», in Contos, Lisboa, Quetzal Editores, 2011.

Notas:
  1. vinte mil-réis – referência ao real, antiga moeda portuguesa.
Questão:
Explica de que modo o sentido da expressão «por não gostar de trovoadas» (linha 21) contribui para a caracterização das duas personagens femininas.
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2017, Época Especial

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