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Dificuldade: por definir
Parte A:
Porquê ir ao teatro? É certamente a questão que se coloca. A resposta «para nos
divertermos» é insuficiente. Etimologicamente muitas vezes, a etimologia de uma
palavra, de uma noção, dá-nos pistas interessantes –, teatro significa «o lugar de onde
se vê». Podemos então imaginar que vamos ao teatro para ver. Mas para ver o quê?
Para ver o mundo. Para ver que mundo? Ou antes, o mundo sob que forma?
No teatro, e ainda que não façamos mais nada senão ler a peça – o que é sempre uma
boa iniciativa antes de a vermos representada –, vemos o mundo sob forma dramática.
O que é que isto quer dizer?... Façamos novamente apelo à etimologia: em grego antigo,
drama significa ação. Vamos ao teatro ver as ações dos homens e das mulheres que,
movidos pelas suas paixões e interesses singulares, entram em conflito uns com os outros.
Este universo particularmente concentrado tem um nome no teatro: chamamos-lhe
«microcosmo dramático», o que significa «imagem reduzida do mundo, da sociedade».
Este microcosmo pode ser mais restrito ou mais alargado.
A França viveu muito tempo sob a autoridade do classicismo do século XVII, que
culmina com as tragédias de Racine; estas distinguem-se pelo número reduzido de
personagens e pelo respeito estrito da regra das três unidades: de tempo, de lugar
e de ação. No prefácio da peça Berenice, Racine até se vangloriava¹ de ter conseguido
fazer coincidir o tempo da ação com o da representação, ou seja, menos de três horas!
Estamos muito longe de Shakespeare, para quem os dias e os anos passam
de acordo com uma ação suscetível de se desenvolver não apenas em todo o reino
da Inglaterra ou da Escócia, mas também no reino da França ou numa floresta encantada
habitada por elfos e fadas, ou ainda numa ilha imaginária. O autor de Hamlet e de Rei Lear
pode permitir-se todas as liberdades relativamente às regras, porque sabe que entre
si e o público existe uma espécie de pacto, um conjunto de convenções que lhe dá a
possibilidade de saltar de um lado para o outro e fazer suceder, no tempo reduzido da
representação teatral, os dias, os meses, os anos. Este grande poeta de cena, que
é Shakespeare, sabe bem que a adesão àquelas convenções aumenta ainda mais
o prazer dos espectadores. A arte de Shakespeare, talvez o maior dramaturgo de todos
os tempos, consiste em pôr em movimento, sobre um palco, o Teatro do mundo, ou seja,
a humanidade em toda a sua diversidade, com todas as suas variantes.
Racine faz-nos penetrar no espaço fechado da paixão amorosa, aliada à questão
do poder, já que as suas personagens são reis, rainhas e príncipes. Mas Shakespeare
faz-nos ouvir todo o tumulto do mundo.
Fonte:

Jean-Pierre Sarrazac, Vou ao Teatro Ver o Mundo, Lisboa, TNSJ e IN-CM, 2016. (Texto adaptado)

Notas:

1 vangloriava – elogiava, louvava.

Questão:
No prefácio da peça Berenice, Racine afirma que conseguiu
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2019, 2ª Fase
A cumprir a regra das três unidades: tempo, lugar e ação.
B criar uma peça com um número reduzido de atores em cena.
C obedecer à regra da unidade de lugar do século XVII.
D construir uma ação cuja duração é igual à da representação.


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