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Parte A:

Contexto:

Era uma vez um rei que partiu para combater por terras distantes, deixando para trás a rainha e o filho
de tenra idade. A morte do rei tornou evidente o desamparo da criança no meio de muitos inimigos, entre
os quais o tio, um «irmão bastardo do rei, homem depravado e bravio, consumido de cobiças grosseiras,
desejando só a realeza por causa dos seus tesouros».


Um grande temor enchia o palácio, onde agora reinava uma mulher entre mulheres.
O bastardo, o homem de rapina que errava¹ no cimo das serras, descera à planície com a sua
horda², e já através de casais e aldeias felizes ia deixando um sulco de matança e ruínas. As
portas da cidade tinham sido seguras com cadeias mais fortes. Nas atalaias³ ardiam lumes
mais altos. Mas à defesa faltava disciplina viril. Uma roca⁴ não governa como uma espada.
Toda a nobreza fiel perecera⁵ na grande batalha. E a rainha desventurosa apenas sabia correr
a cada instante ao berço do seu filhinho e chorar sobre ele a sua fraqueza de viúva. Só a ama
leal parecia segura – como se os braços em que estreitava o seu príncipe fossem muralhas de
uma cidadela⁶ que nenhuma audácia pode transpor.
Ora uma noite, noite de silêncio e de escuridão, indo ela a adormecer, já despida, no seu
catre⁷, entre os seus dois meninos, adivinhou, mais que sentiu, um curto rumor de ferro e
de briga, longe, à entrada dos vergéis⁸ reais. Embrulhada à pressa num pano, atirando os
cabelos para trás, escutou, ansiosamente. Na terra areada, entre os jasmineiros, corriam
passos pesados e rudes. Depois houve um gemido, um corpo tombando molemente, sobre
lajes, como um fardo. Descerrou violentamente a cortina. E além, ao fundo da galeria, avistou
homens, um clarão de lanternas, brilhos de armas... Num relance tudo compreendeu – o palácio
surpreendido, o bastardo cruel vindo roubar, matar o seu Príncipe! Então, rapidamente, sem
uma vacilação, uma dúvida, arrebatou o príncipe do seu berço de marfim, atirou-o para o pobre
berço de verga e tirando o seu filho do berço servil, entre beijos desesperados, deitou-o no
berço real que cobriu com um brocado⁹.
Bruscamente um homem enorme, de face flamejante, com um manto negro sobre a cota
de malha¹⁰, surgiu à porta da câmara, entre outros, que erguiam lanternas. Olhou – correu ao
berço de marfim onde os brocados luziam, arrancou a criança, como se arranca uma bolsa de
ouro, e abafando os seus gritos no manto, abalou furiosamente.
O príncipe dormia no seu novo berço. A ama ficara imóvel no silêncio e na treva.
Fonte:

Eça de Queirós, [«A Aia»], in Contos, Vol. I, Edição de Marie-Hélène Piwnik, Lisboa, IN-CM, 2009.

Notas:

1 errava – andava de um lado para o outro, sem destino certo. 2 horda – conjunto de pessoas que provocam desordem. 3 atalaias - pontos elevados de onde se observa e vigia. 4 roca – instrumento para fiar o linho, a lã ou o algodão. 5 perecera - morrera. 6 cidadela - fortaleza. 7 catre - cama pobre. 8 vergéis - jardins ou pomares. 9 brocado - tecido de seda com fios de ouro ou prata e motivos em relevo. 10 cota de malha - armadura defensiva.

Questão:
Explicita a expressividade da comparação «arrancou a criança, como se arranca uma bolsa de ouro»
(linhas 23 e 24).
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2017, 1ª Fase

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