?
?
Cria conta para teres acesso a vídeos, estatísticas do teu progresso, exercícios originais e mais!
Dificuldade: por definir
Parte A:
Durante sete dias navegámos, tristes e dizendo mal da sorte, pelo meio da enseada
de Nanquim, ao sabor da corrente que nos levava com rapidez. Falhos de mantimentos,
encorajámo-nos a ir comprá-los à aldeia de Sosoquerim, onde não havia novas das nossas
pessoas e, dissimuladamente, nos informámos do caminho que mais nos convinha seguir.
Dentro de duas horas partimos dali para entrar, o mais depressa que nos foi possível, num
pequeno braço de mar, menos frequentado que a enseada, chamado Xalingau, no qual
fizemos cento e quarenta léguas em nove dias, para volver¹ à enseada, já então com a
largura de dez léguas. E durante treze dias fomos singrando² a muito custo, soprados por
ventos de oeste e mal providos de refrescos³, quando à altura das minas de Conxinacau
nos colheu um tufão, tão desabalado em vento, chuva e bruma, que parecia coisa infernal.
Como as nossas embarcações eram de remos, não muito grandes, baixas, frágeis e, para
mais, sem marinheiros, deixámo-nos, desesperançados de nos poder salvar, ir rolando para a
costa, expediente que nos pareceu o menos trabalhoso e, ainda, o menos mau de todos. Mas
nem este miserável intento pudemos levar por diante porque nos saltou o vento de noroeste,
com mares tão cruzados e altos, que éramos como um berço na crista das vagas. E logo nos
ocupámos em alijar⁴ quanto trazíamos, desde os caixões⁵ de prata aos mantimentos, depois
em cortar os dois mastros, correndo os navios à toa e à árvore seca. Cerca de meia-noite
ouvimos na panoura⁶ de António de Faria um altíssimo e lancinante clamor⁷:
Senhor Deus, misericórdia!
Imaginámos que se ia ao fundo e acudimos-lhe com outro grito. Mas ninguém nos
respondeu. Uma grande hora estivemos como pasmados e sem fala. Pouco antes do
alvorecer, abriu-se a nossa nave por cima da sobrequilha⁸, não tardando que a água subisse
no porão a oito palmos de alto. Íamos irremediavelmente ao fundo e, sem um gesto, sem
uma voz, nos conformámos. O dia branqueou e, não avistando à superfície revolta das águas
nada da embarcação de António de Faria, tudo o que em nós ainda era ânimo desfaleceu.
E, vogando assim à flor dos vagalhões⁹ com tanto trabalho e amargura, o mar nos cuspiu à
costa, contra os cachopos¹⁰. Desconjuntou-se de todo o navio e, agarrados uns aos outros,
nos salvámos catorze portugueses de vinte e cinco que éramos. E esta desgraça sucedeu
uma segunda-feira, cinco do mês de agosto do ano de 1542, pelo quê Nosso Senhor seja
louvado para sempre.
Fonte:

Aquilino Ribeiro (adaptação), Peregrinação de Fernão Mendes Pinto,11.ª ed., Lisboa, Livraria Sá da Costa, 1989

Notas:
  1. volver - voltar.2. singrando - navegando.3. refrescos - alimentos frescos.4. alijar - deitar ao mar a carga do navio.5. caixões - caixas grandes.6. panoura – tipo de embarcação asiática.7. lancinante clamor - grito aflitivo.8. sobrequilha – peça de madeira ou de ferro que cobre a quilha do navio.9. vogando à flor dos vagalhões – navegando à superfície de grandes ondas.10. cachopos - rochedos à superfície da água que põem em perigo a navegação.
Questão:
Explica o significado da expressão «Uma grande hora» (linha 21), referindo o contexto em que surge.
Fonte: Exame Português 3º Ciclo - 2015, 1ª Fase

Escreve a tua resposta aqui:


Comentários

Neste momento, não há comentários para este exercício.

Para comentar, por favor inicia sessão ou cria uma conta.